Séries

História dos Transtornos Alimentares

CAPÍTULO 1

Friderada: Um (possível) primeiro relato de caso de anorexia nervosa

Nesse primeiro capitulo da série histórica sobre fenomenologia comportamental da anorexia nervosa e da bulimia nervosa, apresentamos um relato de caso de transtorno alimentar.

O nome anorexia provém dos termos gregos an (sem) e orektos (apetite/desejo). Cordás e Salzano (2004) citam um artigo do autor Habermas (1986) como fonte de um possível primeiro registro que sugestionaria o diagnóstico de AN. A descrição do caso Friderada é o mais antigo até o momento, ele é datado de 895 (séc IX). Serva e obstinada trabalhadora, esta mulher após se recuperar de uma doença desconhecida, apresenta um quadro de apetite voraz. Envergonhada e determinada a se livrar deste comportamento, Friderada buscou o confinamento em um convento. Passou tempos em dietas que se tornaram rígidos jejuns. Manteve suas obrigações até ser completamente consumida pela desnutrição e falecer.

Fontes:

CORDÁS, Taki A.; SALZANO, Fabio T. Transtornos alimentares. In: Saúde mental da mulher. São Paulo: Editora Atheneu, 2004, p. 201-228.

HABERMAS, Tilmann. Friderada: a case of miraculous fasting. Internacional jornal of eating disorders. vol 5, n 3: p. 555-562, 1986.

 

CAPÍTULO 2

Breve histórico

Nesse segundo capítulo sobre a história da Anorexia Nervosa, notamos que a apresentação desta enfermidade é semelhante ao longo dos tempos (restrição rígida da alimentação, jejuns prolongados, distorção da imagem corporal e o alto risco de mortalidade).

A partir dos séculos que compreendem a Idade Média e início da Idade Moderna (V ao XVI) ocorrem os primeiros relatos de casos de jovens jejuadoras, com atos de verdadeiras recusas da alimentação. O período entre 1200 e 1500 (séc XIII a XV) é considerado o ápice das santas jejuadoras: mulheres que praticavam o jejum ou se alimentavam frugalmente. Devido ao fato de se manterem vivas com tão pouco alimento eram vistas como santas e milagrosas. No declínio da Idade Média e com a chegada do Renascimento (séc XVI), muitas dessas mulheres, antes santificadas, passaram a ser olhadas como possuídas por demônios, justamente porque sobreviviam com o mínimo de comida. Isto inaugura as doenças da alma que atacam a carne do corpo, colocando o jejum como um ato satânico, herege ou insano. Neste período, destaca-se a forte influência da ciência, que se dedica a aprofundar estudos na possibilidade de sobrevivência na inanição. Por fim, observa-se a possibilidade, de acordo com o momento e movimento histórico, de entendimentos paradoxais de um mesmo fenômeno (Gorgati, 1999; Fernandes, 2012).

Para as mulheres da Idade Média, dedicar-se à vida religiosa e jejuar era uma forma de escape de matrimônios impostos e destinos arranjados, sem qualquer sorte de autonomia. Logo, simbolicamente este comportamento recusava o modelo social patriarcal da época, compactuando com algum resquício de expressão da voz feminina (Fernandes, 2012).

Assim, famosas por seus corpos emagrecidos, suas estratégias de automutilação, seus jejuns prolongados ou alimentações frugais e suas histórias de negação a casamentos ou destinos traçados sem qualquer autonomia, as santas jejuadoras/santas anoréxicas (séc IX a XVI) representaram uma forte imagem de devoção à religião cristã. Diversos nomes podem ser citados, tais como: Santa Vilgefortis, Santa Clara de Assis, Santa Catarina de Siena, Santa Maria Madalena de Pazzi, Santa Rosa de Lima, Santa Verônica Giuliani (Weinberg & Cordás, 2006).

Referências bibliográficas:

FERNANDES, Maria Helena. Corpo. 4a. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.

GORGATI, Soraia B. Corpos descarnados: um histórico da anorexia. Psychiatry on-line Brasil. vol 4, n 6, 1999.

WEINBERG, Cybelle; CORDÁS, Taki A. Do altar às passarelas: da anorexia santa à anorexia nervosa. São Paulo: Annablume, 2006.

Fonte da Imagem: Por QQFOH0vgXG7ylw at Google Cultural Institute maximum zoom level, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=21993578

 

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