Séries

Homens também podem sofrer de TA

“Nós agimos para quebrar estigmas”. Essa foi a mensagem central transmitida no dia do Alerta Mundial dos Transtornos Alimentares. Quando pensamos em TAs, o que primeiramente nos vem à cabeça são os diagnósticos de anorexia nervosa e bulimia nervosa. Além disso, temos a crença de que apenas mulheres são atingidas por essas enfermidades. Assim, nesta série, chamada “Homens também podem sofrer de TA”, nos propomos a quebrar mais um estigma, apresentando que um diagnóstico de transtorno alimentar também pode ocorrer com homens.

 

CAPÍTULO 1

Homens também podem sofrer de TA: Um relato pessoal

Adam Bryce, 38 anos, sofreu de anorexia nervosa e percebe que ainda não se recuperou do transtorno alimentar, já que se sente enormemente afetado em seu dia-a-dia. Relata que o fato de não ter o corpo emagrecido e estereotipado de pessoas que sofrem com anorexia, não quer dizer que esteja recuperado. Acredita que atualmente o TA se apresenta através “de alguma outra coisa” (sic) e de sintomas depressivos.

Adam relata que não quer estar próximo de situações que envolvam comidas ou refeições, já que não se sente parte de nada daquilo: “não gosto da ideia de cozinhar ou de boas comidas” (sic). Por isso, apenas a sua esposa cozinha para a família, de modo que Adam não precisa tomar qualquer decisão quanto à comida, evitando suas crenças disfuncionais acerca da alimentação.

Durante o documentário, explica o quanto era solitário viver obsessivamente em torno do controle da ingesta alimentar. Neste momento, sente-se deprimido, mas, com o nascimento de seu filho, passou a se preocupar com a sua família. A paternidade gerou conflitos acerca da ideação suicida e Adam, a partir de então, busca por melhora.

Desde os 9 anos de idade, refere sintomas de ansiedade: sentia “borboletas em seu estômago” (sic) enquanto esperava sua mãe retornar do trabalho e sempre teve dificuldades para dormir. Sua personalidade obsessiva, perfeccionista e rígida se acentuou aos 15 anos de idade, quando tentou iniciar sua carreira como jogador de futebol. Adam se preocupava com o que comia, logo, passou a controlar excessivamente sua alimentação e os exercícios físicos, costumeiramente praticados em demasia. Quanto ao corpo, desejava ter um condicionamento físico em forma e forte.

Com 20 anos de idade, passou pelo seu pior momento de adoecimento: “meu cérebro não funcionava, o corpo não tinha energia. Não conseguia andar ou trabalhar e no horário do almoço só tomava água e evitava almoçar com os colegas de trabalho” (sic).

Na atualidade, sente-se muito prejudicado pelos sintomas depressivos, além disso, preocupa-se muito com a possibilidade de seu filho desenvolver algum transtorno alimentar. Por isso, Adam foi em busca da médica Cynthia Bulik, a fim de obter maiores informações. Confira no link o documentário na íntegra!

Fonte: https://attitudelive.com/watch/In-My-Mind-Adam

 

CAPÍTULO 2

The National Eating Disorders Association (NEDA – Associação Nacional de Transtornos Alimentares) é o nome de uma organização Norte Americana que apoia pessoas e famílias que sofrem com os transtornos alimentares.

Dentre os materiais divulgados neste projeto, encontra-se também a proposta de desmistificar o diagnóstico de transtornos alimentares nos homens, o que se torna consonante com o argumento desta série.

A literatura sempre apontou que a prevalência de TAs em homens seria de 1 para 10 (1:10), ou seja, apenas um homem sofreria com esta psicopatologia dentre dez pacientes. Contudo, atualmente, este dado estatístico foi discutido e mudanças foram encontradas: a cada três pessoas com TA, uma é do sexo masculino (1:3). Assim, os comportamentos alimentares patológicos são comuns entre homens e mulheres.

Sabe-se que por serem consideradas doenças ligadas ao sexo feminino, os TAs nos homens, muitas, vezes, não são ponderados como um possível diagnóstico por diversos profissionais da saúde. Faz- se comum que os homens também se sintam envergonhados por sofrerem de uma enfermidade que carrega o estigma de acometer mulheres. Logo, pode-se concluir que os Transtornos Alimentares não têm gênero e são doenças psiquiátricas graves que são tratadas por profissionais especializados.

Fonte: https://www.nationaleatingdisorders.org/learn/general-information/research-on-males

 

 

CAPÍTULO 3

Transtornos alimentares em homens: quais as reais evidências?

É fato que a literatura científica atual permanece limitada nos estudos relacionados aos transtornos alimentares (TAs) em homens.  Apenas 1% das pesquisas em TAs é focada no sexo masculino e estas publicações revelam que os sintomas alimentares podem ter apresentações específicas nesta população. Por muitos anos classicamente se acreditou que a prevalência média de homens portadores de TAs guardava uma relação de 1 homem a cada 9 mulheres; contudo estudos mais recentes revelam que atualmente 1 a cada 4 casos de anorexia ou bulimia nervosa são diagnosticados em homens; uma prevalência bem superior ao que se acreditava.

Não há dúvidas sobre o aumento do diagnóstico dos transtornos alimentares mais conhecidos (anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno da compulsão alimentar) entre homens na última década, contudo ainda se questiona se os profissionais de saúde e familiares estão mais atentos à possibilidade do diagnóstico de TAs em homens ou se, de fato, os homens estão buscando voluntariamente com mais frequência um tratamento. Infelizmente, os TAs ficaram inadequadamente estigmatizados por serem uma doença feminina, dificultando a identificação destes transtornos em homens e promovendo um constrangimento para seu portador em ser diagnosticado, o que atrasa o início de um tratamento apropriado.

Alguns fatores de risco contribuem com o aumento de AN e BN em homens, como a passado de obesidade na infância ou entre praticantes de esportes que se exigem o baixo peso ou baixo percentual de gordura corporal.  Além disso, comparado às mulheres, costuma ter o início dos sintomas mais tardio, apresentarem maior prevalência de etilismo abusivo e uso de outras substâncias ilícitas, apresentarem mais comportamentos compensatórios não-purgativos (como jejum prolongado e atividade física exagerada), e, além dos sintomas típicos destes TAs, apresentarem uma característica de insatisfação com a imagem muscular corporal.

Então, na verdade, sabe-se hoje que os transtornos alimentares não são uma doença exclusivamente feminina e que sua prevalência tem crescido entre homens jovens.

 

 

Dr. Alexandre Pinto de Azevedo

Médico Psiquiatra. Coordenador do Grupo de Estudos em Comer Compulsivo e Obesidade (GRECCO) do AMBULIM-IPq-HC-FMUSP. Coordenador do Ambulatório de Atendimento a Homens com Transtornos Alimentares (GAHTA) do AMBULIM-IPq-HC-FMUSP. Supervisor de Médicos Residentes (R3) em Psiquiatria do AMBULIM IPQ HC FMUSP.

 

 

CAPÍTULO 4

Transtorno alimentar em homens é igual ao das mulheres?

Uma vez que as pessoas entendem que homens também podem sofrer com transtornos alimentares (TA), a pergunta que geralmente vem em seguida é se a manifestação dos transtornos é igual nos homens e nas mulheres. A resposta genérica é sim, mas podem haver algumas particularidades.

Homens com TA tendem a ter mais vergonha de suas atitudes alimentares transtornadas, já que infelizmente transtornos alimentares ainda são vistos como doenças tipicamente femininas. Isso pode fazer com que os homens tentem “esconder” sintomas alimentares e demorem mais para buscar tratamento.

Em relação aos distúrbios de imagem corporal, trabalhos científicos mostram que homens com TA podem ser tão insatisfeitos quanto as mulheres com a doença. Geralmente, porém, a insatisfação não está focada em partes específicas do corpo, mas sim na percepção geral a respeito da sua forma. Os homens desejam, sim, um corpo mais magro e com menos gordura, mas não costumam ter um peso desejado, como as mulheres. Além disso, homens apresentam com mais frequência uma preocupação com a muscularidade, o que pode levar a um padrão atualmente conhecido como “comer transtornado voltado para a muscularidade” (muscularity oriented disordered eating).

 

 

Ana Carolina Pereira Costa é nutricionista coordenadora da equipe de Nutrição do Grupo de Atendimento aos Homens com Transtorno Alimentar do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo (AMBULIM – IPq – HCFMUSP). Membro do Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares e Obesidade (GENTA), da Academy for Eating Disorders (AED) e do The Center For Mindful Eating (TCME). Instrutora certificada do programa Mindfulness Based Eating Awareness Training (MB-EAT) e autora do blog “O Corpo é Meu!” (www.ocorpoemeu.com)

 

 

CAPÍTULO 5

Busca pela muscularidade e imagem corporal em homens

Os transtornos alimentares (TAs) são dentre as doenças psiquiátricas aquela descrita como a que apresenta maior disparidade de prevalência entre o sexo feminino e masculino sendo, portanto, uma psicopatologia “generificada”. Grande parte das pesquisas conduzidas ao longo do século XX são caracterizadas pela noção de que os TAs não atingem os homens. Tal quadro vem sendo modificado, e acredita-se que 1 a cada 4 casos de TAs seja observado em homens.

Recentes dados científicos indicam os comportamentos de risco para os TAs numa taxa de crescimento mais rápida em homens quando comparados às mulheres, e que os sintomas de TAs em homens e fatores associados são tão severos quanto os observados no sexo oposto. Logo, é possível afirmar que os TAs em homens não são mais considerados uma raridade. Ao contrário, as evidências apontam para um aumento expressivo na prevalência do transtorno nessa população.

Aspecto fundamental para a mudança de paradigma na forma de observar a apresentação da psicopatologia em homens parece ter conduzido ao fato de hoje ser possível afirmar que esses sujeitos também possuem uma relação conturbada com seu corpo e sua imagem corporal. Os TAs possuem relação com a superestimativa do peso e da forma corporal. Em outras palavras, o ideal corporal magro permeia a lógica dos instrumentos de medida e modelos teóricos sobre a psicopatologia dos TAs. Ocorre que tal lógica não se aplica aos resultados de pesquisa mais atuais que indicam que a insatisfação corporal de homens está relacionada ao desejo de um corpo mais musculoso, maior, e portanto, direcionado ao aumento do peso e da forma corporal. Isso contrasta notavelmente com a busca pela magreza que serve como base sobre a imagem corporal relacionada enquanto critério diagnóstico dos TAs.

Esse novo entendimento tem possibilitado reconhecer uma forma de desordem alimentar que recebe a descrição de muscularity-oriented eating disorders. As desordens alimentares orientadas para a muscularidade referem-se a uma série de comportamentos alimentares desordenados que são impulsionados pela busca do ideal muscular. Esse ideal distinto do corpo masculino tem inúmeras implicações importantes para atitudes relacionadas à alimentação e ao corpo, bem como às manifestações comportamentais associadas. O uso de esteroides anabolizantes é um exemplo de comportamento transtornado orientado a busca pelo ideal muscular. Tal modelo corporal, por sua vez, exige atenção concomitante para o aumento da massa muscular e controle da gordura corporal, de modo a atingir um corpo muscularmente definido. Para tanto, alguns comportamentos transtornados incluem a adoção de dietas rígidas, rotinas de exercícios físicos extenuante e abuso de substâncias anabólicas.

A imagem corporal de homens com TAs pode não condizer somente com o ideal de corpo magro (preocupação e superestimativa do peso e da forma corporal). Atenção deve ser dada ao ideal de corpo musculoso e as desordens alimentares orientadas para a busca pela muscularidade. Talvez assim seja possível superar a clássica visão cultural dos TAs enquanto uma psicopatologia feminina, e favorecer o auxílio aos homens que passam por sofrimento mental pela sua relação conturbada com o corpo e com a alimentação.

 

Prof. Dr. Pedro Henrique Berbert de Carvalho

Profissional de Educação Física, mestre e doutor. Docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação Física (Mestrado e Doutorado) em ampla associação entre a Universidade Federal de Juiz de Fora e Universidade Federal de Viçosa. Conselheiro do Núcleo de Pesquisa e Ensino do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da USP (NUPE – AMBULIM-IPq-HC-FMUSP). Autor de artigos científicos e capítulos de livro sobre homens, imagem corporal, saúde mental, muscularidade, entre outros.

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