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O depoimento de Arley Gower

Parte I

Arley Gower é uma adolescente que sofre de anorexia nervosa há 3 anos e está em estado de remissão de seus sintomas. Através de um vídeo muito delicado, ela nos conta um pouco a respeito de sua experiência ao sofrer com essa doença psiquiátrica. Durante esse texto, vamos encontrar trechos de suas falas e de seus familiares, possibilitando a compreensão do que ocorre com aqueles que são diagnosticados com AN.

Durante este documentário, Arley nos conta que desde que adoeceu vive uma constante luta consigo mesma: sente-se muito culpada, com nojo e com muito medo. Essa é a parte da anorexia, e o maior medo dela é a comida. Assim, a adolescente nos explica com clareza que se sente dividida em duas: o cérebro bom que sabe que precisa comer para sobreviver e o cérebro ruim que vai olhar a comida e dizer “não”.

Gower relata que, depois de anos de tratamento e ao atingir o estágio de recuperação, está pronta para expor seu diário com narrativas do que ela e sua família passaram: “em 2014, eu me mudei da fazenda da minha família e fui estudar num internato. Nessa escola foi onde meu peso começou a despencar. Eu caí numa vida de hábitos anoréticos ameaçadores. Minha família toda começou a estranhar a minha condição. Por três anos eu escrevi meus pensamentos.  Agora, eu estou pronta para falar com a minha família sobre o que todos nós passamos”.

Embora sofra de AN há 3 anos, Arley está se tratando há 2 anos e explica que “quanto melhor estiver, mais tenho para viver”. Assim que foi diagnosticada, ela retornou para a casa de seus pais. Sente que essa foi a pior parte de sua vida e acredita que tenha sido igual para a sua família, já que a anorexia nervosa é uma doença psiquiátrica que afeta todo o sistema familiar. O diálogo com os familiares é de extrema importância porque permite que todos compreendam do que o paciente padece.

“Anorexia rastejou para a minha vida furtiva e silenciosamente, de forma que a princípio só os outros a viram. Eu estava em negação. Eu fiquei presa numa concha escura de mim mesma”. Com esta fala, Arley mostra o quanto o diagnóstico dessa psicopatologia é difícil de ocorrer, mesmo porque os pacientes não se vêm como adoecidos. Portanto, a oferta de suporte da rede de apoio de familiares e amigos é de majoritária relevância para que o tratamento se realize.

Mesmo após tratamento e portadora de um quadro considerado em remissão, a mãe de Arley, com o seguinte depoimento, indica o quanto este transtorno alimentar é crônico e necessita ser assistido de perto: “ainda existe muitas comidas que ela não gosta de comer. Ela gosta de fazer o seu próprio almoço. Estou um pouco preocupada de que ela tenha perdido peso nos últimos tempos, qualquer pai ou mãe que tenha filhos com anorexia sabe que é uma facada no coração quando eles perdem um pouco de peso”.

Os transtornos alimentares são doenças taciturnos e mudos, costumam aparecer na adolescência e eventos podem desencadear a doença: mudanças de vida, comentários pejorativos acerca do corpo, prática de dietas, doenças que causam emagrecimento (viroses) e trazem sensação de bem-estar para o paciente: “Eu era uma criança muito feliz até eu me mudar para a cidade.  Mudei-me desta vasta e livre vida (fazenda) para uma vida de dietas em uma escola com mais de 700 alunos. Eu não sabia mais quem eu era. Eu me senti deprimida e frequentemente eu tinha enormes e esmagadoras ondas de desesperança e frustração que se debruçavam sobre mim, afogando-me. Então eu comecei a remar onde as expectativas para conquistar resultados e para ter uma alimentação saudável começaram a me consumir. As remadas acabaram e eu continuei a cortar mais e mais comidas da minha dieta, até que eu me tornei doente, restando muito pouco de mim. Durante esta época, eu estava incrivelmente cansada e não tinha energia para nada, mas ainda assim, eu me forçava a ir para a academia como uma escrava. Eu me tranquei cada vez mais, até me isolar do mundo. A minha ausência de personalidade levou os meus pais a tomarem ações. Eu fui obrigada a comparecer a múltiplas consultas, mas não importava com quem eu fosse me consultar, eu estava perdendo peso com muita velocidade e meu estado mental não estava melhorando. Minha família estava sempre muito determinada a me fazer melhorar e eu estava sempre determinada a agradá-los para que pudessem voltar para as suas vidas. Tudo foi colocado em espera por mim. Minha mãe largou o trabalho dela. Minha irmã estava considerando deixar a universidade. Tudo estava pausado por mim. A culpa que tive com isso foi horrível e muito pesado, parecia que estava carregando o mundo em minhas costas. E eu sabia que a única condição para que tudo parasse e acabasse era a minha melhora”.

 

Parte II

Já no seu momento de recuperação, Arley retorna às lembranças escritas no seu diário, permitindo a entrada no mundo da anorexia nervosa: “eu estou muito nervosa com tudo que tenha a ver com comida. Eu preciso saber qual é o plano de alimentação para o futuro próximo, caso contrário, eu me sinto muito ansiosa. Meu cabelo está caindo, eu me sinto tonta, eu preciso me levantar muito devagar ou eu sinto que vou desmaiar, minha visão fica muito ruim em poucos segundos. Meus ossos doem quando eu me deito ou me sento por muito tempo. Meus ossos e juntas doem muito. Eu sinto que eles estão em atrito uns com os outros”. Quando lê seu diário, a adolescente explica que não percebia que estava doente na época, para ela tudo parecia muito normal. Atualmente, ela é consciente de que “a anorexia pode tomar conta de você e se tornar você”.

O tratamento dos transtornos alimentares é muito moroso tanto para os familiares quanto para os próprios pacientes, além de exigir acompanhamento com uma equipe multidisciplinar com consultas constantes e supervisões muito rígidas daqueles que estão sob cuidados: “Viver com anorexia é como viver com outro cérebro. Um cérebro horrível que define tudo em função de fazer você perder peso.  A recuperação é uma das coisas mais difíceis e desafiadoras que eu fiz”.

No documentário, Arley conversa com cada um de seus familiares separadamente e procura entender o que mais os impactou ou afetou a respeito da AN. Para o pai da adolescente, a compreensão de que Arley estava doente, de como funcionava aquele adoecimento e da gravidade do quadro demorou. Ele relata: “esses anos foram um terror. Para mim, tem sido muito difícil porque eu tenho visto o quanto você (falando para Arley) esteve doente. E eu também, eu acho. Mas eu também vi o quanto isso afetou a sua mãe. Eu vi duas pessoas sofrendo muito. Eu me arrependo de não ter percebido antes o quanto você estava doente”.

A irmã de Arley também faz seu depoimento: “afetou muito a nossa relação porque você sabia que quando eu estivesse em casa, a nossa mãe seria mais dura com você porque ela tinha a mim para ajudar. Nós sempre fomos muito próximas, como melhores amigas. Ao mesmo tempo que você me amava quando me via, você me odiava, como a anorexia me odiava. Você não conseguia conversar comigo porque você estava sempre muito focada em comida”.

O relacionamento com a sua mãe foi afetado por constantes brigas e discussões em decorrência da ingestão de carboidratos, já estes lhe que causavam grande pavor. A mãe sentia muito medo da filha quando tentava realimentá-la, pois procurava aumentar as calorias das refeições sem que ela soubesse (uma tentativa de evitar mais conflitos). Quando relatou que se preocupava com a possibilidade Arley cometer suicídio, a mãe disse:   “Quando você me deixava te abraçar, eu sentia uma grande conexão”.

Na finalização de seu relato, Arley diz quais razões encontrou para se manter melhor e engajada na manutenção de seu tratamento, evitando todo o sofrimento que a anorexia nervosa pode causar através de graves prejuízos sociais, relacionais, identitários, familiares, escolares: “quero ser capaz de viver a vida e de sentir a vida. Sair com os meus amigos. Sair de férias. Sentir gotas de chuva cair no meu rosto. Correr com os cachorros. Sentir o cheiro da primavera. Escutar a chuva no telhado. Cantar no chuveiro. A vida é muito bonita, mas não podemos ver se estamos de olhos fechados”.

Palavras-chave (Partes I – II): Anorexia nervosa; depoimento; família; tratamento; Arley Gower.

Fonte: https://attitudelive.com/watch/In-My-Mind-Arley

2 Comentários

  1. Adriana Pereira venancio disse:

    Verdade essa doença é muito perigosa,às vezes fazemos de tudo para ter um corpo perfeito…Até hoje sofro com bulimia e anorexia…

  2. Adriana Pereira venancio disse:

    A equipe do Ahc são profissionais maravilhoso…
    A enfermeira Varlene uma excelente profissional 👏👏👏

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