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Susie Orbach: “Eu achei que o meu livro mudaria o mundo. Como as coisas ficaram piores? ”

 Parte I

Na década de 60, encontramos um cenário de contraposições aos anos 50: mulheres independentes financeiramente e que não eram donas-de-casa ou subordinadas a seus maridos. Elas conquistaram o mercado de trabalho e o acesso a um produto que, há tempos, despontava, cada dia com mais força, nas propagandas e prateleiras: a beleza. Naomi Wolf, em seu livro O mito da beleza, anuncia, através do olhar do movimento feminista, que as mulheres saíram de casa para serem escravas da beleza, bem como consumidora de seus produtos.

“Sinta esse prazer” era uma das mensagens publicitárias que veiculava a nova vivência do corpo, um misto de cuidados higiênicos e prazeres. Começou-se a permitir maior exposição dos corpos que exalavam sensualidade e liberdade. Neste período, as cinturas finas, os quadris retos, as barrigas firmes e bronzeadas ditavam o que poderia ser considerado belo. O papel das costureiras, acima de tudo, era evidenciar o quanto suas clientes haviam emagrecido. Logo, esta década veio para marcar a aversão ao acúmulo de gordura na barriga, bem como a valorização de figuras magras e longilíneas.

Para além dos concursos das misses dos anos 60, no final desta década figuras como Veruschka e Twiggy ganharam destaque com suas carreiras de manequins. Viviam à base de dietas, mantinham corpos extremamente emagrecidos e fisionomia insolente ou desafiadora. Por fim, eram meros cabides de roupas de grife. Assim, iniciamos a década de 70 impulsionados pelo entendimento de que beleza é ser diferente e autêntico, desde que à forma da moda daqueles tempos.

Palavras-chave: Anos 60; beleza; movimento feminista; manequins.

Referência bibliográfica:

SANT’ANNA, Denise B. História da beleza no Brasil. São Paulo: Contexto, 2014.

WOLF, Naomi. O mito da beleza. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

 

 

Parte II

Maio de 68, o Festival de Woodstock (1969) e o movimento negro americano inauguraram a entrada da década de 70. O ar de revolução e mudança tinha como principal emblema o movimento hippie, cujo slogan se propunha a comunicar a liberdade de expressão; o famoso ‘sexo, drogas e rock ‘n’ roll’; a união livre; a quebra de tabus e a contestação artística e intelectual.

 

A “queima dos soutiens” foi um evento histórico clássico que simbolizou e guardou na memória de todos a segunda onda do movimento feminista. Nesta época, Susie Orbach escreveu o livro Fat is a feminist issue (tradução livre: Gordura é uma questão feminista) com o objetivo de questionar as regras e padrões de beleza a serem seguidos.

 

Liberdade e coragem eram sinônimos de beleza; ademais, a atitude de “assumir o que se era de fato” era muito valorizada, quase como um ato heroico e valente. A beleza deveria ser real e natural, propiciando o surgimento de indústrias cosméticas de produtos naturais.

A alimentação e o estilo de vida também foram afetados, ou seja, práticas de yoga, meditação e alimentação macrobiótica ou vegetariana eram amplamente difundidos. O corpo deveria ser cuidado de dentro para fora e de preferência por vitaminas. Assim, os corpos frequentemente tinham silhuetas esguias.

Apesar da intensa dispersão do discurso de liberdade com relação aos corpos, às vestimentas e aos direitos humanitários, encontramos também a mensagem de que era preciso se desintoxicar. Ação que se dava através da restrição ou abolição de alimentos com gordura e açúcar. Em suma, podemos dizer: cada tempo com sua contradição!

Palavras-chave: Anos 70; movimento hippie; beleza.

Referência bibliográfica:

SANT’ANNA, Denise B. História da beleza no Brasil. São Paulo: Contexto, 2014.

Fontes Imagens:

Foto de William Stitt em Unsplash/Foto de Pablo Heimplatz em Unplash

 

 

Parte III

Nas décadas de 60 e 70, o mundo viveu grandes mudanças na área de comunicação. O acesso a mídias como revistas, programas de rádio e de televisão foram profundamente propagados e conjuntamente a isso, a publicidade e a venda de produtos industrializados cresceram exponencialmente. Todas essas novidades formaram um solo fértil para promover maneiras de reverberar rapidamente os rígidos e exigentes padrões de beleza.

Em entrevista recente, a psicóloga/psicanalista e escritora Susie Orbach contou sobre seu livro, escrito há 40 anos atrás, Fat is a feminist issue (traduação livre: Gordura é uma questão feminista). Embora tenha sido escrito em 1978, o tema abordado continua mais atual do nunca, já que Orbach tinha por objetivo analisar e propor soluções para problemas com o corpo e com a alimentação.

Neste livro, ela se concentrou no público feminino e suas relações de desigualdade para com os homens num mundo visto como machista. A década de 70 foi fundamental para repensar o lugar social que a mulher ocupava nas famílias, na educação, no trabalho e o reflexo disso tudo no corpo, na alimentação, nas vestimentas e na busca desenfreada para se adequar a um modelo específico.

Até então, as mulheres viviam a experiência de se preocuparem com a sua alimentação ou não alimentação e com excessos de gordura. Tais preocupações estavam em favor de agradar os homens e seus desejos. O movimento feminista buscava lutar contra a homogeneidade do que representaria o belo; contudo, Orbach revela que naquele período não foi possível observar que a ação das indústrias sobre a venda de corpos ideias já estava em pleno funcionamento. Atualmente, percebemos que a indústria da beleza se alimenta da insegurança que as pessoas têm com os seus corpos. As redes sociais e os blogueiros são apenas resultado deste lento e antigo movimento das mídias e das corporações.

Os maus sentimentos com o corpo e a depreciação do mesmo, tornaram-se comuns entre as pessoas. A comparação de corpos direcionada para a busca da perfeição é maciça e a oferta de discursos que envolvem dieta, cirurgias plásticas, moda, alimentos, exercícios físicos são camuflados pela justificativa da saúde, quando na verdade, são promissores do adoecimento.

Cada vez mais cedo, o corpo é colocado como objeto de agrado e entrega ao outro. Assim, a sexualização é mais precoce nas fases do desenvolvimento, atingindo, facilmente, os pré-adolescentes. A tecnologia associada à comunicação de estereótipos da beleza está normalizando a reconstrução de corpos por meio de cirurgias e o comer patológico. Susie Orbach finaliza a sua entrevista dando um alerta para a necessidade de termos um olhar crítico para a cadência de acontecimentos que nos levaram a consequências drásticas quando o assunto é a relação com o corpo, com a alimentação e com o sofrimento advindo da soma de todos esses fatores. Por fim, ressalta a importância de transmitir as informações e as reflexões ligadas ao assunto contemplado neste artigo, a fim de promover mudanças e priorizar a saúde de todo e qualquer indivíduo.

Palavras-chave: Susie Orbach; mídia; indústria da beleza; Fat is a feminist issue.

Fonte: https://www.theguardian.com/society/2018/jun/24/forty-years-since-fat-is-a-feminist-issue

 

 

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