Séries

As multivisões da Psicologia: uma contribuição no tratamento dos TAs

Nesta série da ASTRAL, o nosso objetivo é apresentar a ampla e mosaica composição da Psicologia, com suas múltiplas convergências e divergências, dentro do extenso assunto dos TAs.

Muitas vezes, nos damos de cara com problemas no trabalho, com dificuldades em nossos relacionamentos diários (sejam eles profissionais, sociais, familiares ou amorosos) e com conflitos de assuntos gerais. O psicólogo é o profissional responsável pelo processo psicoterapêutico, no qual as pessoas falam sobre suas dificuldades e desafios com a finalidade de, ao longo do tempo, desenvolverem novos comportamentos, novas saídas para seus problemas, novas reflexões, novos projetos de vida que envolvam mais criatividade e autonomia. Assim, o psicólogo promove saúde mental a partir da possibilidade de cada indivíduo criar para si uma nova forma de lidar com seus sentimentos e com o mundo.

Quando entramos em contato com a Psicologia é comum escutarmos sobre as separações teóricas dessa área do conhecimento, as chamadas “linhas da psicologia”. Isso, muitas vezes, parece nos confundir ou até mesmo dificultar qual profissional devemos escolher para nos tratarmos. Mas, na verdade, a Psicologia é um campo do conhecimento composto por diversas teorias que se complementam e se diferenciam em variados aspectos. Assim, a escolha do profissional para o seu acompanhamento não deve ser apenas uma questão de abordagem teórica, mas também uma questão do vínculo criado com ele.

 

 

A Psicologia Analítica e os Transtornos Alimentares

Falar de psicologia analítica é falar de um mundo amplo e profundo. Assim, para conhecer um pouco desta teoria psicológica, é preciso entender alguns conceitos e definições criadas pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung.

Ele formulou uma teoria baseada em pesquisas e estudos empíricos, trabalhando principalmente com pacientes psicóticos e também a partir da sua própria experiência com os símbolos advindos de seu inconsciente.

O pressuposto desta teoria psicológica é a existência de um self, ou um todo, que engloba parte da consciência a qual orienta o ser e sua mente, fazendo o homem se situar no mundo. O self é o eu mais profundo, muito mais do que é percebido pela consciência e que está ligado ao sentido e à fonte da existência, além de regular a personalidade.

O processo de terapia tem o objetivo de integrar os conteúdos inconscientes à consciência, integrando, também, o self. Este processo foi nomeado por Jung de individuação, o qual tem a finalidade de ampliar a consciência e de descobrir, livre das influências do mundo externo, o autêntico sentido da vida para cada ser.

 

 

 

 

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No mundo inconsciente estão os conteúdos dos complexos, que são um grupo de ideias ou imagens emocionalmente carregadas e no seu centro encontram-se os arquétipos ou imagens arquetípicas. Não é possível compreender a psicologia analítica sem entender a definição de arquétipos. Jung definiu os arquétipos como padrões universais do inconsciente coletivo, que são o inconsciente herdado de antepassados e formam um conteúdo comum das lendas, das religiões, das mitologias e dos contos de fadas. Os símbolos são a manifestação dos arquétipos no aqui e agora, percebido pelo mundo consciente, ou seja, os símbolos são uma forma de investigação do arquétipo manifesto que impactam os pensamentos, as atitudes e os relacionamentos. Através de diversas técnicas, entre elas a análise dos sonhos, faz-se possível conhecer e integrar os símbolos.

Para Jung, não existe um corpo sem a união com a mente. O corpo é a manifestação do inconsciente, é a psique que está nele estampada e a desconexão com o corpo é a desconexão com o eu interior e com o próprio self.

 

 

 

Carl Gustav Jung – Reprodução da Internet

 

 

 

A identificação do ego com os conteúdos ativados do inconsciente leva o indivíduo a um estado de possessão com o complexo e estes processos psíquicos estão vinculados com o corpo. No caso dos transtornos alimentares, esta consciência é tomada por complexos que resultam em uma desconexão da integração corpo-mente. O indivíduo priva seu corpo ou o transborda de comida em uma manifestação de seus complexos ativados e não integrados à consciência levando a uma desordem psíquica.

Assim, os sintomas da anorexia, da bulimia e do TCA são manifestações simbólica dos complexos no corpo. O corpo mostra simbolicamente o complexo que é inconsciente e, dessa forma, apresenta o sentimento que está bloqueado.

O tratamento para diminuir ou anular os sintomas dos transtornos alimentares a partir da psicologia analítica visa que o indivíduo se torne consciente de seus conflitos e complexos; assuma uma posição  egóica forte perante as dificuldades do ambiente; olhe e aceite o seu corpo como ele é e reconheça de modo consciente as suas emoções.

 

 

Graziela Dassoler
Psicóloga Especialista Clínica
CRP 06/102737
Bacharel em Administração de Empresas pela FAAP
Psicóloga pela Universidade Paulista
Especialização em Psicoterapia Analítica e Abordagem Corporal pelo Instituto Sedes Sapientiae
Especialização em Transtornos Alimentares e Obesidade pelo CEPSIC do Instituto Central do HC da Faculdade de Medicina da USP
Aprimorada em Transtornos Alimentares pelo curso avançado do Ambulim do Ipq-HCFMUSP
Psicóloga colaboradora da equipe do Ambulim do Ipq -HCFMUSP
Instrutora Mindfullness Based Eating Awareness Professional Training (MB-EAT)

 

 

 

 

A Teoria do Apego e os Transtornos Alimentares 

Imagem: Criação – Helen Batenko  Crédito – Agphotographer   Fonte –  AGphotographer

 

Nesta parte 1 do texto, explicarei um pouco sobre a teoria do apego com a finalidade de relacioná-la, num segundo momento, aos Transtornos alimentares e, assim, proporcionar o entendimento da importância desta teoria no tratamento dessas doenças (com destaque para anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno de compulsão alimentar).

A teoria do apego foi elaborada e desenvolvida pelo psicólogo John Bowlby. A proposta deste autor era compreender como nós, seres humanos, nos vinculamos desde bebês e quais repercussões afetivas e relacionais os vínculos que formamos podem ter em nós.

O apego é definido como um sistema inato de vinculação do bebê com sua mãe e seu pai, ou com as figuras cuidadoras que fazem a função dos pais (avós, tios, tias, familiares, pessoas próximas). O bebê humano, por necessitar e depender de cuidados de outro humano, tem uma tendência natural para o contato com outros seres humanos. Este contato está para além da alimentação, ou seja, envolve o convívio, o toque, a proteção, a fala e todas as necessidades básicas que estão misturadas com os afetos que os cuidadores devem dar ao bebê.

A partir deste sistema inato de vinculação que acontece para com todos nós, desenvolvemos um padrão de relacionamento com as pessoas, de expressão de emoções e sentimentos, de comportamentos que estão todos ligados à nossa forma de vincular e de regular os nossos afetos. Portanto, o apego é um tipo de vínculo afetivo, social e de motivação interna, em que as bases de segurança são formadas. Para que isso aconteça, o desenvolvimento de uma relação estreita com uma figura de apego (pais, familiares, pessoas próximas) deve ocorrer. Assim, com a construção do modo de vincular, cada um de nós, de um jeito próprio, estará apto para conhecer a si e a se relacionar com o mundo.

Depois desta breve introdução, o leitor deve estar se perguntando qual a ligação que podemos fazer com os TAs.

 

Imagem: criação – OlegSirenko

 

As formas de nos vincular foi tema de estudo de Bowlby com o objetivo de acompanhar como ocorre o desenvolvimento da saúde psicológica (apego seguro) e das doenças psicológicas (apego inseguro). O Transtorno Alimentar é uma forma de adoecimento psíquico; portanto, apresenta formas inseguras de apego/vínculo.

Para o apego inseguro, existem duas maneiras de manifestação: o apego inseguro ansioso e o evitativo. A identificação do tipo de padrão de vinculação do paciente é muito importante para o direcionamento do tratamento, o qual procurará proporcionar a construção de vinculações seguras, ou seja, aquelas que promovem a experiência de amparo.

Assim, para concluir, os estudos científicos, nos quais me embasei para este texto, indicam que, de acordo com a particularidade de cada pessoa que está em tratamento psicológico, pacientes com TA podem se beneficiar de algumas abordagens durante o acompanhamento com o psicólogo, tais como: regulação de problemas de impulsividade; autorreflexões; promoção da melhora dos relacionamentos com as pessoas em volta; auto-observação e reflexão do quanto os afetos instáveis podem impactar negativamente a vida daquela pessoa; observação de quando os afetos que causam instabilidade ocorrem; criação de repertório para lidar com situações de conflitos; possibilitar a expressão das experiências das emoções e dos sentimentos.

 

 

Marcela Nunes Paulino de Carvalho

Psicóloga clínica especialista em Psicologia Hospitalar pelo Instituto Central HC-FMUSP. Pós-graduanda em Teoria Psicanalítica pela PUC. Aprimorada em Transtornos Alimentares pelo curso de Aprimoramento Interdisciplinar em Transtornos Alimentares – AMBULIM-HC-FMUSP. Atua como psicóloga voluntária/colaboradora no grupo de Imagem Corporal e Percepções do Corpo no AMBULIM-HC-FMUSP. Psicóloga voluntária/colaboradora do Programa de Atendimento, Ensino e Pesquisa em Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência (PROTAD – HC – FMUSP).

 

 

 

 

A TERAPIA COMPORTAMENTAL DIALÉTICA (DBT) NO TRATAMENTO DOS TRANSTORNOS ALIMENTARES

Atualmente o tratamento dos transtornos alimentares possui recomendações claras de procedimentos e protocolos a serem seguidos. De acordo com a Associação Americana de Psicologia (APA), a primeira recomendação de tratamento psicológico para essa população clínica em adultos, seria a Terapia Cognitiva Comportamental (TCC-Transdiagnóstica), pois mostrou resultados de maior efeito em comparação com outras modalidades de tratamentos. Porém, as adaptações da TCC-Transdiagnóstica para os transtornos alimentares não são recomendadas quando o paciente apresenta: risco de suicídio, automutilação, abuso de sustâncias, entre outras comorbidades. Contemplando uma parcela pequena de pacientes com transtornos alimentares que chegam em hospitais, clínicas e consultórios no Brasil.

Ao decorrer dos anos com o crescente número de pacientes que apresentavam comorbidades associadas aos transtornos alimentares, aumentou a necessidade de implementação com outras abordagens psicológicas. Uma delas, seria a Terapia Comportamental Dialética (DBT), que inicialmente foi desenvolvida para pacientes graves, considerados cronicamente suicidas e que tinham comportamentos auto-lesivos direcionados ao corpo. Uma parcela dessa população posteriormente foi diagnosticada com transtornos de personalidade borderline, tendo como base uma intensa desregulação emocional. A dificuldade em regular as emoções, principalmente o afeto negativo, é uma dificuldade comum em pacientes com transtornos alimentares.

O tratamento da DBT é baseado em princípios, aumento de repertório de habilidades e se desenvolve através de uma hierarquia de prioridades. O princípio central é ajudar o paciente a construir uma vida de valores e que valha a pena ser vivida, pois erroneamente, por muito tempo, se acreditou que o caminho do tratamento era apenas eliminar os comportamentos problemas (restrição, vômitos e compulsão alimentar), porém a ausência desses comportamentos não é necessariamente sinônimo de felicidade/bem-estar, muitas vezes o paciente permanece em sofrimento, porém não emite mais o comportamento problema. Então, desde o início, um dos focos é destinado a construção de uma vida, para ajudá-lo a não cair em vazio ou cederem a comportamentos problemas que estão desconectados com uma vida digna de ser vivida.

No caminho da construção de uma vida que valha a apena ser vivida, é importante aumentar o repertório comportamental do paciente, relacionada à mudança e à aceitação da realidade. Na DBT, existem alguns tipos de formas de desenvolver habilidades destinadas à promoção de novos comportamentos de mudança e à aceitação de emoções dolorosas. Os pacientes que estão em tratamento DBT, vêm tanto para terapia individual quanto para o treinamento das habilidades em grupo.

Para o aprofundamento das técnicas utilizadas pela DBT, colocamos o texto do psicólogo Fellipe Augusto de Lima Souza completo na nossa janela “Artigos”, confiram: http://www.astralbr.org/2018/12/13/a-terapia-comportamental-dialetica-dbt-no-tratamento-dos-transtornos-alimentares/

 

 

 

Fellipe Augusto de Lima Souza – Professor de Psicoterapia da Residência em Psiquiatria do Hospital de Clínica Dr. Radamês Nardini – Máua. Formação em Terapia Comportamental Dialética (DBT) pelo The Linehan Institute and Behavioral Tech, Washington – EUA. Coordenador do Grupo de Habilidades DBT da Enfermaria do Comportamento Alimentar – ECAL IPq HC FMUSP. Colaborador do Laboratório de DBT do Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento – DBT LAB, SP.

 

 

A Abordagem Humanista Fenomenológica-Existencial no Tratamento dos TAs

 

A atuação psicológica clínica na abordagem humanista fenomenológica-existencial atribui maior valorização à experiência do indivíduo diante de seus conflitos, questionamentos e dificuldades – sejam relacionais, psicológicos e emocionais. Para que seja acessado o conteúdo da experiência e das vivências do indivíduo, é primordial e essencial que tenha acesso às descrições que o mesmo faz sobre elas para que, então, possa ser compreendia a partir do referencial deste indivíduo – sem haver quaisquer atribuições prévias por parte do profissional psicólogo partindo de conhecimentos teóricos, apenas.

Ao se tratar de um cuidado psicológico e psiquiátrico, como é o caso dos Transtornos Alimentares, diz respeito a um diagnóstico que parte de preenchimento de critérios, pois é necessário que haja uma sistematização mundial do reconhecimento da psicopatologia. O psicólogo que atua clinicamente assistindo a pacientes com Transtornos Alimentares deve ter conhecimento aprofundado sobre o tema, sobre outros transtornos psiquiátricos, pois comumente há comorbidades psiquiátricas (dois ou mais transtornos psiquiátricos presentes, podendo ou não ter correlação entre si), sobre as áreas profissionais necessárias para um tratamento eficaz e atuar junto aos demais profissionais de forma inter e/ou transdisciplinar.

Ao se falar especificamente da atuação clínica do psicólogo de abordagem humanista fenomenológica-existencial junto a estes pacientes, seu olhar está direcionado às descrições das experiências que o paciente oferece, sem julgar ou impor conhecimentos teóricos prévios sobre as descrições da vivência e o próprio diagnóstico de transtorno alimentar. Pois as descrições, assim como os históricos clínicos e de vida, são bastante singulares, ou seja, fazem parte de uma subjetividade constituída a partir da intersubjetividade. Este é um aspecto bastante presente e notório em pacientes com Transtornos Alimentares: a singularidade na descrição de suas experiências com o transtorno alimentar diagnosticado em relação à sua vida, a si mesmo e às relações interpessoais. A proposta do cuidado psicológico está em trazer à tona a perspectiva do paciente sobre si e sobre o transtorno para que seja compreendido de forma mais autêntica e proporcione ao menos a possibilidade de se auto compreender.

Dentre muitos autores presentes nesta linha psicológica, cito Carl Rogers, autor da Abordagem Centrada na Pessoa, o qual traz o princípio de que todos os indivíduos possuem a tendência à atualização e a tendência à autoatualização que representam a potencialidade de mudanças em si mesmo. Sua abordagem propõe que, ao estar em uma relação de compreensão com o psicólogo, o paciente está em processo de transformação interna para sua própria compreensão. O cuidado psicológico trará a oportunidade de propiciar ao paciente uma relação propícia ao seu crescimento e olhar para si mesmo, de modo que possa olhar para o seu diagnóstico e a circunstância vivida devido ao transtorno alimentar e trazer para si mesmos seus significados reais singulares.

Portanto, para esta linha psicológica, o indivíduo poderá se ver compreendido pelo outro a partir do seu próprio modo de ser, seus significados e elementos significativos que partem sua própria percepção de ser no mundo, sem a prerrogativa de ser enquadrado em um rótulo teórico prévio. O tratamento psicológico partirá primordialmente da descrição sobre si e disposição do paciente e da abertura e atitudes fenomenológica e facilitadoras (empatia, autenticidade e congruência) do psicólogo.

Para o aprofundamento deste tema, colocamos o texto da psicóloga Thaís Gazotti completo na nossa janela “Artigos”, confiram: http://www.astralbr.org/2019/01/24/a-abordagem-humanista-fenomenologica-existencial-no-tratamento-dos-tas/

 

Thaís Gazotti

Psicóloga (CRP 06/126044)

Mestre em Psicologia (PUC-Campinas)

Especialização em Tratamento Psicológico de TAs (AMBULIM-IPq)

Doutoranda em Ciências da Saúde (FMUSP)

Atuação clínica particular, docente e colaboradora no AMBULIM.

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