Prevenção

Como prevenir sem causar danos

 

Sabe-se o quanto o tratamento dos transtornos alimentares (TA), é complexo e custoso para o paciente e família, em termos emocionais e financeiros. Exige muitos anos de assistência por equipe multiprofissional especializada, sendo que nem sempre o resultado é a remissão completa dos sintomas. Os prejuízos podem se estender para toda vida. Por conta desta problemática, acredita-se ser necessário o investimento em ações de prevenção.

Na literatura desde a década de 80, intervenções tem sido testadas para reduzir os fatores de risco, e aumentar os fatores protetores, com a expectativa de que se houver redução do risco, também ocorrerá dos TA em seus quadros completos. Resultados iniciais destes estudos indicavam que as abordagens psicoeducacionais, com foco em descrever os Transtornos Alimentares e informar sobre os malefícios dos comportamentos precedentes aos TA tinham efeito negativo, pois aumentavam o interesse pelo uso de métodos inadequados de controle de peso. A partir de 2000, vários estudos de prevenção dos TA surgiram, todos baseados na classificação em níveis de acordo com a presença ou não de fatores de risco de TA  como descrito no quadro 1.

 

 

Os resultados dos programas são diversificados (veja lista de referências ao final do artigo). O consenso entre eles é que programas que tem como alvo fatores de risco de TA, utilizam teorias cognitivas (Ex: Teoria Social Cognitiva, Terapia Cognitiva Comportamental, e dissonância cognitiva), incluem conteúdo de alimentação saudável/nutrição com uma abordagem de não-dieta, educação sobre a mídia/pressão sociocultural, e aceitação corporal/satisfação corporal, promoção da atividade física saudável, autoestima são os que prestam resultados positivo na redução ou eliminação dos fatores de risco.

O que sabemos hoje é que a prevenção pode ser feita com a população como um todo envolvendo desde o ambiente escolar com participação de professores, coordenadores, pais e alunos, até o governo com a regulamentação de medicações para emagrecer/suplementos/shakes.  No entanto deve-se dar maior atenção aos grupos de risco, como meninas adolescentes – geralmente mais preocupadas com peso e forma corporal, além de grupos que tenham como foco de trabalho, exigências com relação ao corpo e alimentação, como modelos, bailarinas, atletas, estudantes de nutrição e educação física.

Um alerta importante a todos profissionais, educadores e pais, é de que todas as ações, em qualquer nível, local, e grupo devem ter foco em mudanças de comportamento que promovam uma melhor relação com comida e corpo. Entenda como podemos prevenir sem causar danos no quadro abaixo:

 

Para saber mais:

Ciao AC, Loth K, Neumark-Sztainer D. Preventing eating disorder pathology: common and unique features of successful eating disorders prevention programs. Curr Psychiatry Rep 2014; 16:1-13.

 

Dunker KLL. Prevenção dos transtornos alimentares: uma revisão metodológica. 2009. Nutrire: Rev Soc Bras Alim Nutr. 2009; 34:195-211.

 

Dunker KLL, Timerman F, Alvarenga M, Scagliusi FB, Philippi ST. Prevenção dos transtornos alimentares e postura do nutricionista. In: Alvarenga M, Scagliusi FB, Philippi ST.  Nutrição e transtornos alimentares: avaliação e tratamento. Barueri: Manole; 2010. p. 497-516.

 

Dunker KLL, Alvarenga MS, Romano ECB, Timerman F. Nutrição comportamental na prevenção conjunta de obesidade e comer transtornado. In: Alvarenga MS, Figueiredo M, Timerman F, Antonaccio CMA. Nutrição Comportamental. São Paulo: Manole, 2015.p.445-464.

 

Le LK, Barendregt JJ, Hay P, Mihalopoulos C. Prevention of eating disorders: A systematic review and meta-analysis. Clin Psychol Rev 2017; 53:46-58.

 

Watson HJ, Joyce T, French E et al. Prevention of eating disorders: A systematic review of randomized, controlled trialsInt J Eat Disord 2016; 49:833-62.

 

Programas de prevenção:

Haines J, Neumark – Sztainer D, Perry C, Hannan PJ, Levine MP. V.I.K. (Very Important Kids): A School-Based Program Designed to Reduce Teasing and Unhealthy Weight-Control Behaviors. Health Education Research. 2006; 21:884-895.

McVey GL, Davis R, Tweed S, Shaw BF. Evaluation of a school-based program designed to improve body image satisfaction, global self-esteem, and eating attitudes and behaviors: a replication study. Int J Eat Disord. 2004;36:1-11.

 

Steiner-Aidar C, Sjostrom L, Franko DL et al. Primary prevention of risk factors for eating disorders in adolescents girls: learning from practice. Int J Eat Disord. 2002; 32:401-411.

 

Stice E, Shaw H, Burton E, Wade E. Dissonance and healthy weight eating disorder       prevention programs: a randomized efficacy trial. J Consult Clin Psychol. 2006;74:263- 75.

 

Wade TD, Davidson S, O´Dea JA. A preliminary controlled evaluation of a school-based media literacy program and self-esteem program for reducing eating disorder risk factors. Int J Eat Disord. 2003; 33:371-383.

 

 

Profa. Dra. Karin Louise Lenz Dunker

Nutricionista formada pela FSP-USP. Mestre e Doutora em Nutrição Humana Aplicada. Pós-doutora pelo Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica – UNIFESP. Nutricionista voluntária do Programa de atenção aos transtornos alimentares (PROATA) – UNIFESP. Membro do Grupo Especializado em Nutrição, Transtornos Alimentares e Obesidade – GENTA e responsável pelo Núcleo Prevenção. Autora do primeiro programa de Prevenção Integrada do Brasil, realizada em escola municipais de SP, chamado New Moves.

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