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Tudo começou quando eu tinha 12 anos e tive pneumonia. Isto porque, concomitantemente com a cura daquela enfermidade, comecei a apresentar todos os sintomas de uma pessoa com glicose alta, isto é, muita sede, muita, muita fome, perda de peso, muito cansaço e presença freqüente de inúmeras e diversas infecções. A diabetes é uma doença de fatores genéticos determinantes, mas que pode ter seu início precipitado por uma doença grave e até mesmo por fatores psicológicos. No meu caso, foi a pneumonia quem apertou o gatilho.
O ponto importante aqui é que, como eu estava com a glicose muito alta, durante esses dois anos (foi o tempo que levou até descobrirem que eu estava diabética), meus hábitos alimentares estavam completamente desregulados. Isto porque, como eu não produzia insulina, que é o hormônio que transforma tudo que é ingerido em glicose para ser absorvido pelas células do corpo,) era como se eu não estivesse comendo nada. Eu estava comendo compulsivamente, meu cérebro ficava mandando a mensagem para eu comer mais, pois não entrava nenhum alimento nas minhas células e eu ia emagrecendo, num processo chamado de "síndrome do campo de concentração", e tudo o que eu comia ficava na forma de glicose no meu sangue entupindo minhas veias.
Quando eu tive o diagnóstico do diabetes e comecei a tomar insulina, tudo que eu comia passou a ser absorvido. Lembro que não dei muita sorte com o meu primeiro médico! Ele não fez uma reeducação alimentar comigo, tampouco me ensinou a aplicar a insulina. Assim, continuei a comer "do mesmo modo, só que agora com a presença da insulina. O resultado foi que eu engordei que nem um balão (
Pra mim, aquilo foi horrível! Eu era uma adolescente de 14 anos, muito insegura, que sempre buscou a aprovação dos outros, com baixa auto estima e a minha máscara era a aparência externa (a bonequinha lourinha de olhos azuis, magrinha).
De repente, por um desencanto qualquer, minha máscara segura se quebrou e eu estava exposta e todos iriam ver que eu era inferior - a diabetes só vinha confirmar isso, ( era o que eu achava naquela época).
Nos seis meses que se seguiram parece que eu estava vivendo um pesadelo. Perdi várias amigas no colégio (de fato, algumas coleginhas se afastaram de mim, pois deixei de ser atrativa e perdi os muitos fãs que andavam ao meu redor, mas na verdade, eu mesma me desincumbi da tarefa de me isolar das pessoas). Eu via os cochichos quando eu passava, via os olhares de pena e sentia vergonha de mim mesma.
Em casa as coisas também não iam bem. Meu pai, naquela época, estava trabalhando demais, e eu praticamente só o via nos almoços de sábado e domingo. Ele sempre foi um homem preocupado com o físico dele e eu achava que, quando ele dizia para eu parar de comer, era porquê ele queria que eu emagrecesse, que ele queria a princesinha dele que todo mundo elogiava de volta, e não que ele estava preocupado com minha saúde.
Foi então que comecei a comer escondido. Comprava na rua todas as porcarias, tudo que podia e que não podia comer. Em casa, trancada em meu quarto, tinha meus “binges” (ataques de comer compulsivo) sempre lendo. Era minha época da leitura e da comida. Devorava um livro por dia em meio a trocentos kg de porcaria.
Hoje vejo que aquilo era pura fuga da realidade eu comia com aquela voracidade, que nem chega a dar pra ter prazer com a comida como uma forma de válvula de escape da minha realidade, e comia lendo, para entrar em uma outra história e esquecer por aquele momento que estava me matando.
Lembro que sempre depois de um binge eu ia dormir um pouco (ás vezes até tomava remédio pra dormir). Para mim isso era uma tentativa de fechar os olhos para o que eu havia acabado de fazer. Às vezes eu comia tanto e meu estômago ficava tão dilatado que eu não podia deitar de bruços e tinha que me acomodar para dormir igual a uma grávida.
Aos 15 anos, eu me fiz a seguinte pergunta: Antes eu comia a mesma quantidade e não engordava. O quê mudou? A resposta veio como um raio em minha mente: A INSULINA.
Foi então que comecei a parar de tomar insulina sem falar pra ninguém. Aí voltei a emagrecer. Todos falavam: Muito bem! Como ela está linda! Mas só eu sabia o que estava acontecendo e tinha medo, não estava feliz. Não sabia que aquilo era transtorno alimentar, mas sabia que podia me matar, mas não conseguia não fazê-lo.
Conseguia ficar até 1 1/2 , 2 meses sem tomar insulina, mas depois, quando percebia que já estava entrando em Ketoacetose, quase entrando em coma, passava duas semanas tomando insulina para baixar a glicose.
Quando não estava tomando a insulina, eu estava com minha máscara de segurança, então podia ir a festas, mas sempre estava muito cansada, devido à glicose alta e passava o dia inteiro dormindo. Sempre dentro de casa, não raro um pouco deprimida, pois sabia o que estava fazendo e aquilo me dominava.
Quando tinha que tomar insulina, aí a situação ficava preta! Eu chegava a inchar de quatro a cinco quilos em uma semana, entrava em depressão total. Não queria sair de casa, tinha vergonha daquilo em que tinha me transformado. Ficava o dia inteiro lendo, fazia binges em gelatina diet (a única coisa que podia comer a vontade para que a glicose pudesse baixar - uma vez cheguei a comer 20 caixas de gelatina num dia, o que me rendeu a noite no banheiro) e escrevia poesias no estilo Augusto dos Anjos em seus dias mais pessimistas...
Aos 20 anos, meus pais me levaram para uma clínica de diabetes em Boston, e lá tive o diagnóstico de Transtorno Alimentar. Eu era bulímica. Fazia binges e usava como métodos purgativos a manipulação da insulina, laxantes, diuréticos e inibidores de apetite.
De lá pra cá fiz diversos tratamentos no Brasil e no exterior. Estou estável há quase 2 anos.
Quando a questão é transtorno alimentar, prefiro falar em estabilidade do que em cura. Isto porque, é a maneira como lidamos com nossos problemas, medos, ansiedades e frustrações e essas coisas sempre existirão na vida de uma pessoa normal. Por isso, é possível, na realidade, é bem provável ter recaídas.
O maior aprendizado que eu tive, nesses anos, foi quanto aos pensamentos "8 ou 80". Não é por que eu fiz uma besteira aqui, que eu vou ter que condenar toda a minha vida. O fato de eu ser um ser humano me dá o direito de errar e escorregar, desde que eu me reerga no momento seguinte. O que passou, passou e não adianta chorar sobre o leite derramado. Mas o futuro depende apenas do que eu fizer aqui e agora. Então, não vou desperdiçar a chance de recomeçar!
Maria Clara Siqueira Castro
Ao longo desses três anos de sua existência, a ASTRAL-BR já ajudou inúmeras pessoas com transtornos alimentares nos mais diversos lugares de nosso país, seja conseguindo tratamento, indicando médicos, dando esclarecimentos, ou mesmo com uma palavra amiga Entre você também! Participe de nossas atividades! E tenha a certeza de que você também pode contar com a ASTRAL BR!