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É estranho como as palavras ensaiam em minha mente, quando é necessário expor-me além dos meus limites. Como numa coxia, aguardam ansiosas e desesperadas o momento de entrar em cena. Mas nem sempre é possível o anonimato dos bastidores, especialmente quando há consciência de que suas palavras podem transmitir muito mais que uma simples mensagem, mas questões pertinentes à vida. Vida, um compromisso precioso, do qual ausentei-me temporariamente.
Quem era aquela moça em traje de formatura que, sorridente, me fitava, como a zombar de minha infelicidade?
Tudo começou repentinamente – deve ser assim que esses tormentos internos costumam aparecer – uma simples fragilidade coloca-nos diante de um inimigo desconhecido, que reside em nós mesmos. Voltei do hotel onde trabalhava, como costumava fazer todos os dias: o mesmo caminho, as mesmas angústias e incertezas, a neve caindo sobre meus ombros e eu, insistentemente empurrando-a com os dedos gelados sob as luvas, como se quisesse empurrar a saudade que me corroia pouco a pouco. Os olhos, único espaço do meu corpo exposto, entre o cachecol e o capuz, lacrimejavam a cada trinta ou quarenta passos. Ou a cada uma ou duas lembranças...
Cheguei em casa e o ar quente me acolheu, me trazendo a sensação ingênua dos abraços que não estavam perto de mim. Jantei. Sentei-me diante da TV e cantarolava como que automaticamente as mesmas músicas, dos mesmos clipes, de todos os dias, de todas as noites, feito uma engrenagem. De repente – não sei explicar como, nem porque – levantei-me instintivamente em direção ao lavabo, olhei para o vaso sanitário ajoelhei-me e muitas lágrimas rolaram sobre meu rosto. Desse momento, a única coisa que me lembro claramente é ter ouvido uma voz que vinha de dentro de mim e dizia: "a partir de hoje, começa um inferno em sua vida". O que estava acontecendo afinal? Fazia pouco mais de três meses que eu estava em Londres com um casal de primos, dali outros três renovaria meu visto e, não fossem os imprevistos, ficaria por mais um ano. Minha nostalgia não me impedia de gostar de lá de verdade, de pegar um mapa de metrôs e trens e sair descobrindo um território que você sabe não ser seu, mas que te desperta um misto de empatia e curiosidade, tornando as proporções do mundo bem menores do que julgamos ser. Uma semana após minha chegada, estava trabalhando num hotel, um ambiente que me proporcionava certa familiaridade, mais um entre outros, desde que me formei em hotelaria. Após umas quatro mudanças, fixei meu endereço nessa casa do lavabo, do início do meu tormento.
Vomitei.
Abri a porta sentindo-me estranha, aliviada. Sem saber exatamente o que estava acontecendo, escovei os dentes e fui para a sala. Alguém me perguntou se eu tinha passado mal e eu assenti com a cabeça. Vieram milhões de diagnósticos com base no que eu poderia ter comido. Indisposição estomacal, normal, se assim o fosse, mas o que aconteceu naquela noite, se repetiu no dia seguinte e no outro e no outro e no outro. Uma única vez ao dia? Não. Duas, três, quatro vezes. Se eu não vomitava naturalmente, eu o induzia. Que alívio era aquele que essa atitude grotesca me provocava? Fui ficando fraca, jamais havia me sentido assim. Não tinha resistência para subir as escadas que me levavam ao quarto que eu dormia. Dez degraus e pronto: lá estava eu, tomando fôlego, sentada, como se estivesse escalando uma montanha imensa. Numa tarde, numa visita ao British Museun, desmaiei descendo as escadas. Um casal me ajudou. Minha máquina fotográfica saiu voando, caiu no chão, cuspiu o filme e eu perdi as memórias registradas desse passeio. Algumas estão dentro de mim, como essa. Meus primos providenciaram a transferência da minha cama para a sala, assim eu não precisaria subir mais as escadas. Eu não tinha forças para andar, não conseguia, sequer, levar uma colher à boca. Papinhas de nenê, suplementos alimentares, chás, nada. Passei quase quatro dias sem ingerir absolutamente nada, com medo do que viesse depois. No hotel, meus chefes perceberam minha indisposição; além disso, havia emagrecido o suficiente para tirar minha calça jeans sem precisar desabotoá-la e abrir o zíper. Eles me aconselhavam voltar ao Brasil e fazer um tratamento. Aquilo estava tomando proporções inaceitáveis. Não contei para meus familiares o que estava acontecendo; achava injusto preocupá-los se não poderiam fazer nada, estando tão distantes. Certa noite, quase dois meses depois de ter a primeira crise, vomitei sangue no hotel. Um amigo impacientou-se comigo e disse que não iria mais admitir que eu estivesse naquele estado, sem consultar um médico. Ele me perguntou se eu preferia esperar pelo momento que eles se veriam obrigados a enviar meu corpo ao Brasil. Assustei-me. Pediu que eu me deitasse enquanto ele terminava meu serviço e que, em seguida, iríamos juntos ao hospital. Fomos. O rapaz da recepção que nos atendeu, perguntou quais eram os sintomas, ao que eu fui falando: "vomito há quase dois meses, não menstruo há cinco – até então, não havia comprado um pacote de absorvente em Londres – tenho tonturas, desmaios, sinto-me fraca." "Você, provavelmente, está grávida", concluiu. "Senhor, não existe a menor possibilidade"."Ok, aguarde que chamaremos seu nome".
Esse minuto durou horas. Passamos, eu e o Max, a madrugada em claro na sala de espera do hospital. Ele é diabético e de tempo em tempo verificava a glicemia. Sentia-me culpada por ele ter que esperar comigo. Não havia mais posições naquela cadeira horrorosa, até que a enfermeira me chamou. Passei por um exame prévio, me fez algumas perguntas e ela me encaminhou até uma cama, pediu que eu me deitasse e aguardasse o médico (sinto muito!) esqueci o nome. Com uma prancheta e caneta em mãos, ele entrou, sentou-se e começou a conversar comigo informalmente; eu não compreendia por que. Perguntou da minha família, meus amigos, meu país, o que eu gostava de fazer e se eu estava fazendo essas coisas em Londres. Perguntou se eu me achava gorda, ao que eu respondi que não e ele finalizou com uma pergunta que me assustou: "Já pensou em suicídio?".
O que era aquilo? Que raio de pergunta era aquela? Onde ele queria chegar? Depois de finalizar suas anotações em nada menos que três folhas sulfite, me disse: "Aguarde um instante que vou buscar o que você precisa".Voltou com um livrinho, intitulado "Eating Distress": "Você está com Bulimia Nervosa Atípica, ou seja, aquela que não está associada, necessariamente, a fatores estéticos. É necessário que você descubra a origem desse problema e que faça o tratamento adequado, pois a freqüência de suas crises não é mais considerada normal. Como o vômito é uma força contrária ao corpo, isso pode desencadear uma parada cardíaca ou insuficiência renal. Sua vida está em risco. Se você quiser, posso te indicar ótimos centros de tratamento aqui na Inglaterra, mas surtiria mais efeito se a terapia fosse feita em seu próprio idioma, já que é necessário falar de sentimentos. Eu sugiro que você volte ao Brasil".
Ele saiu da sala e, no período que eu fiquei em observação, pensei no que ele havia me dito. Eu corria risco de vida? Nunca esperamos ouvir isso. Entre tantas coisas que ele me falou, tentando me fazer compreender a bulimia, uma delas me marcou muito e, hoje em dia, procuro não mais pecar nisso. Ele me disse que guardamos muitas coisas que precisariam ser ditas. Se não o fazemos em palavras, o corpo tem sua maneira de fazê-lo em ações. O ato de vomitar simboliza colocar para fora as angústias que não deveriam morar em nosso peito.
O Max avisou minha prima e ela foi ao hospital, junto com um amigo que dividia a casa conosco. Contei para ela e entre lágrimas (minhas e delas) a fiz jurar que não contaria para ninguém que eu tinha bulimia. Por que? Não sei exatamente, mas acredito que seja pelas informações distorcidas que temos a respeito de distúrbios alimentares, o que gera um preconceito da sociedade.
Voltei para casa amparada pelos braços, tamanha era minha fraqueza. Comi uma maçã e fomos, eu e minha prima, contar o diagnóstico para meu primo. Chegamos juntos à conclusão que o melhor seria regressar ao Brasil. Nada vale o risco de não sobreviver. Menos de uma semana após a internação, fui demitida do hotel. Eles alegaram a ausência de turistas em Londres, depois que começou a guerra no Iraque, mas eu acredito que tenha sido por causa das minhas condições de saúde. Quando recebi a notícia da demissão, me senti perdida. Como juntaria dinheiro para comprar a passagem? Mas a vida não nos desampara e um amigo me ajudou.
No intervalo entre o diagnóstico e minha volta ao Brasil, fiz vários exames clínicos, pois aquele médico-anjo que foi colocado em minha vida, me auxiliou a acelerar o tratamento, mesmo eu não sendo européia, o que facilitaria as coisas. Ele até mesmo ligou no meu celular, perguntando se eu havia levado a documentação no local que ele havia me encaminhado. Que ele possa ser abençoado por exercer essa profissão por amor, acima de tudo.
Liguei para meu irmão e para um amigo, que hoje é a pessoa com quem divido meus dias, contei o que estava acontecendo e sobre meu retorno. No dia em que comprei a passagem, fiquei menstruada. Embora triste e um tanto quanto frustrada por ter interrompido muitos planos, voltei. Porém, não vou mentir: pisar no Brasil foi a melhor coisa que me aconteceu naqueles últimos meses. Senti vontade de beijar o chão, mas mantive a linha!
Tão bom reencontrar as pessoas, aquelas que estão enraizadas em nosso coração... Os lugares que são seus, as comidas, o clima, o cheiro. Mas, engana-se quem pensa que minha recuperação começava, pelo simples fato de ter retornado. Já em São Paulo, sem convênio que cobrisse meu tratamento e sem condições de fazê-lo em clínica particular, vi-me num beco sem saída. Fui informada por alguns psicólogos e psiquiatras que entrei em contato que o tratamento deveria ser feito aliado a um nutricionista. Como? Fui a um clínico geral que me solicitou exames, como: hemograma, endoscopia, análises clínicas. Uma homeopata me prescreveu um tratamento que, embora contradizendo o que muitos pensam a respeito, me ajudou bastante. Mas e os terapeutas? Eles seriam peças decisivas na minha recuperação.
Fiquei doente por mais dez meses e hoje, após esse período, posso dizer que, infelizmente, as pessoas não estão preparadas para lidar com um portador de bulimia, caso contrário, as coisas seriam bem mais fáceis. Nós somos julgados e taxados por pessoas que não valorizam a vida que têm – como se entregar a uma depressão? – "Você tem tudo, é bonita, inteligente, tem amigos e família. O que mais você quer?" Saúde. Só isso eu queria. Na época me sentia triste porque meus familiares não sabiam como agir, mas hoje, não os julgo. Ninguém sabe lidar com o desconhecido. Por isso é necessária a informação. Por isso acho que tão importante quanto o tratamento do portador de bulimia, é o esclarecimento daqueles que o cerca. Hoje eu sei que a terapia é quase tudo, mas não é a peça decisiva na sua recuperação. A peça decisiva é você. Aquela moça em trajes de formatura, sorrindo, sabe quem era? Eu. Meu desgosto comigo era tão grande que eu tinha raiva de me ver sorrindo em fotos antigas, numa época em que eu era tão feliz e nem sabia... Sentia-me uma prisioneira, dentro de meu próprio corpo. Eu queria fugir, mas não havia para onde correr. Eu cheguei a pedir para minha mãe que me internasse. Tinha a sensação de morte iminente.
Sonhei com meu avô que dizia que me amava muito e que eu tinha muita coisa para construir por aqui. Disse que só dependia de mim, me pedia forças para lutar. Eu lutei. Lutei com toda minha fé e minha crença, tentando encontrar a força necessária para voltar àquela que sorria. Venci. Só tive plena certeza de minha recuperação quando, pouco mais de um ano doente, no momento em que me via mais forte, perdi uma grande amiga de infância. Ela faleceu num acidente de carro, com uma foto minha na carteira; me chamava de irmã. Chorei, chorei muito e juntei todas as minhas forças para evitar uma recaída. Evitei.
Sei que nós, ex-portadores de bulimia temos que tomar muito cuidado em situações de grande carga emocional. Prefiro não pensar nisso; deixo a vida me levar e tento me fortalecer nos pontos em que sei que posso fraquejar. Minha família é muito importante para mim. Amo-os com todo meu coração. Nada é mais precioso que estar com eles. Meus amigos são meus tesouros, sempre me apoiaram e tentaram compreender o que eu vivia. O Ali, o amigo que estava no aeroporto junto com meu irmão, tornou-se um amor e ele me ajudou muito a superar essa fase. Nessa fase doente, ele me acompanhou durante nove meses, quase todo o período. Na primeira vez que nos vimos, cinco meses antes da minha viagem à Londres, ele disse que me esperaria porque o coração dele sentia que nossas vidas estavam traçadas. Maktub, ele disse. Só devo agradecê-lo pela paciência e compreensão. Não é fácil enfrentar tudo isso. Fácil é falar de amor quando as coisas vão bem. O verdadeiro se prova em momentos como esse.
Minha maior felicidade é saber que, apesar dos obstáculos, a vida segue seu curso incessantemente, dando-nos a oportunidade de aprender com todos os tipos de experiência. Não sinto que esse foi um tempo perdido, mas é um tempo que não desejo reviver. Eu sei o problema que me levou a isso e procurei saná-lo dentro de mim. É preciso muita perseverança e essa virtude todo ser humano tem, embora, muitas vezes, esteja camuflada.
Pode ser que essas minhas palavras cheguem aos olhos ou aos ouvidos de um portador de bulimia. Caso isso aconteça, de tudo, para você, em especial, tenho algo a dizer: Jamais se entregue. Sua mente deve ser uma eterna aliada e, seu coração, a força que te impulsiona para a vida. Muito além dos batimentos cardíacos, essa força, ciência nenhuma é capaz de explicar. Ela é capaz de nos mostrar o quanto vale a pena viver.
Ao longo desses três anos de sua existência, a ASTRAL-BR já ajudou inúmeras pessoas com transtornos alimentares nos mais diversos lugares de nosso país, seja conseguindo tratamento, indicando médicos, dando esclarecimentos, ou mesmo com uma palavra amiga Entre você também! Participe de nossas atividades! E tenha a certeza de que você também pode contar com a ASTRAL BR!