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Relatos

Introdução da série

Nesta série, abordamos relatos e projetos de pessoas que ressignificaram o adoecimento do transtorno alimentar. Acompanhe os capítulos.

 

Relato: Fernanda do Valle

Após 10 anos do lançamento do meu primeiro livro “Eu, ele e a enfermeira… na luta contra a anorexia”, volto agora com o projeto “Liberte-se: você nasceu para ser REAL, não PERFEITA”, para celebrar a minha cura. Esse projeto chega pra mostrar a diversidade dos corpos em suas formas, idades e etnias, em uma convergência de duas artes (escrita e a fotografia). É uma luta por visibilidade social e respeito. É um movimento artístico coletivo e de ruptura, que busca exterminar os padrões.

Sei que especialistas não gostam de falar em cura.
No meu caso, por ter tido Transtorno Alimentar por mais de 18 anos sem tratamento (e sem a consciência de que eu tinha um), há 11 anos, quando comecei a me tratar, a equipe não tinha um bom prognóstico para mim.
Falavam em estabilização com acompanhamento constante. Com idas e vindas.
Há uma década, saí da minha segunda internação e nunca mais voltei.     Continuei com o tratamento com uma equipe multidisciplinar e me curei.
Estou aqui, cheia de vida e de saúde, com muitos feitos e projetos e com uma família linda e abençoada.

Eu acredito na cura. Porque a cura é aceitar as nossas limitações, é aprender a pedir e aceitar ajuda. Cura é viver um dia de cada vez. É dar pequenos passos e cumprir pequenas metas (com grandes comemorações).
Cura é entender que não somos perfeitos e que tudo bem dar um passo para frente, e três para trás. Cura é um processo não linear. Somos humanos e faz parte cair! E a cura está exatamente em não desistir de levantar!

 

 

Fernanda do Valle nasceu no Rio de Janeiro em 17/03/1978. Formou-se em turismo pela Puccamp, em 1999, mas desde criança viaja pelo mundo tendo como fonte de inspiração a beleza dos diferentes tipos de artes e culturas.

Fernanda é autora de cinco livros: “Eu, ele e a enfermeira… na luta contra a anorexia”, “Dos desencontros ao encontro”, “Tesselas – A família mosaico”, “De: filha Para: pai” e “Crônicas de Frenelda – Aventuras na Terra do Tio Sam”.

Depois que se mudou para os USA, em 2015, graduou-se em fotografia profissional pelo New York Instutute of Photography.

 

 

Relato: Natalie Balduccini

Aos 13 anos já me preocupava com meu peso.  Me achava gorda e entrava na conversa típica de meninas adolescentes.  Dos 21 aos 28 anos a estória mudou. Passava o dia olhando no espelho; minhas coxas não podiam tocar uma na outra, os ossos da pélvis tinham que estar a vista com a barriga totalmente reta. Sempre fiz esporte. Só que havia virado uma obsessão, um direito para poder comer algo.  Não existia a hipótese de não fazer atividade física.  Lembro da época que morava em Boston e acordava as 5:30h da manhã para correr na rua com -20ºC lá fora. Na época eu estava fazendo um curso de culinária profissional.  Sempre amei comer e cozinhar, o que para uma anoréxica é uma tortura.  Passei o curso cozinhando e praticamente não comendo nada do que fazia. Terminando o curso fui estagiar em um restaurante e novamente não consegui comer.  Essa era a minha vida. Cercada de comida, mas não comendo. Saia do restaurante e ia direto para a academia.

Minha família e amigos próximos sempre falavam para mim, “coma, você está muito magra”.  Isso para mim era a pior coisa que alguém podia falar, ficava irritada com o comentário e achava que ninguém me entendia.  Quando tínhamos um convite para jantar fora era outra tortura. “O que será que vai ter no jantar? Como vou fazer para comer algo que eu me permita? ”. Nada de carboidratos, gordura, laticínios ou doces. As opções eram poucas.  Vivia sempre com fome e mal-humorada.  Tentava disfarçar o mal humor até o ponto de eu mesma não me aguentar.  Foi então que meu marido falou de uma amiga nossa que indicou uma nutricionista especializada em anorexia.  Por ele, eu topei uma “conversa” com ela.

Cheguei na Patricia com a certeza de que não tinha anorexia.  Ela fez uma série de perguntas.  Após eu responder, ela abriu um livro que estava em cima da mesa e me mostrou uma lista de sintomas de anorexia.  Eu preenchia todos os sintomas!  Foi nesse momento que a ficha caiu.  Saí de lá determinada a melhorar.  Não vou falar que fui direto para uma padaria ou que parei de fazer esporte.  Foram muitos anos de terapia, muita vontade própria e muito autoconhecimento.  Fui aos poucos incluindo alimentos.  Tentei não focar na balança e sim nos meus sentimentos.   Eu não estava feliz com anorexia, e apesar de ser magra, eu achava meu corpo feio. Queria muito ser feliz e parar com as regras do que e quanto comer. Queria levar uma vida “normal”, sair para jantar, tomar um café, almoçar em família, coisas que até então era um problema. Hoje aos 47 anos, vejo que desperdicei muito tempo em algo que não vale a pena.  Continuo fazendo esporte todos os dias e cuido da minha alimentação, mas de uma maneira saudável e feliz. Aprendi a gostar do meu corpo.

Temos que comemorar as nossas conquistas, não importa o tamanho que seja. Temos que aprender que não somos perfeitos, e aceitar quem nós somos. Aprender a nos amar e cuidar de um e do outro.  Temos que buscar a felicidade no dia a dia, viver o presente.  Não é o futuro que importa é sim o caminho até lá.  Não deixe o tempo passar sem pedir ajuda. Ninguém consegue fazer tudo sozinho e nem deve. Família é para suporte, apoio e carinho. Temos que entender e respeitar a individualidade de cada um, sem julgar e apoiar nas horas difíceis.No fundo o que todos nós queremos é sermos felizes e amados.

 

 

Natalie Balduccini

Faculdade: Schiller International University – Engelberg, Switzerland. Hotel Management Degree. Cambridge School of Culinary Arts, Cambridge, MA, USA – Professional Chefs Professional.

 

 

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